O comportamento climático atípico registrado no verão tem trazido reflexos importantes para a cafeicultura brasileira. Apesar de as lavouras apresentarem boa carga visual e pegamento satisfatório das floradas, as altas temperaturas registradas em dezembro podem ter comprometido o tamanho dos grãos, especialmente na fase de expansão dos frutos.
Segundo o pesquisador André Moraes, da Fundação Procafé, o cenário observado nas lavouras do Sul de Minas, interior de São Paulo e Cerrado Mineiro não é comum para o mês de janeiro. “Visualmente, a lavoura está boa, as cargas estão bem formadas e o pegamento da florada foi positivo. O problema não foi falta de água, mas sim o calor muito intenso no momento da expansão do fruto”, explica.
Calor interfere diretamente no tamanho do grão
De acordo com o pesquisador, o tamanho da peneira do café é definido justamente durante a fase de expansão do fruto. “É como se a ‘forminha do tijolo’ já estivesse pronta. O calor excessivo naquele período provavelmente já reduziu essa forminha”, compara.
Embora ainda não seja possível mensurar a severidade do impacto, a avaliação técnica indica que parte da peneira pode ter sido prejudicada, sobretudo devido às temperaturas elevadas registradas em dezembro. No Cerrado Mineiro, a situação tende a ser ainda mais sensível, em função de condições climáticas mais extremas. “Não houve frustração de carga. O café está no pé. Mas o calor prejudica a fotossíntese e, consequentemente, o tamanho do fruto”, destaca Moraes.

Chuvas de fevereiro e março serão decisivas
Apesar dos efeitos já observados, o pesquisador ressalta que as chuvas dos próximos meses serão determinantes para o enchimento dos grãos. “Se fevereiro e março tiverem um regime de chuvas normal, o grão pode até ser menor, mas tende a ficar mais pesado”, afirma.
A falta de precipitações adequadas nesse período crítico pode resultar em grãos pequenos e leves, reduzindo o rendimento na colheita. “Agora é um momento crucial. Esses próximos dois meses fazem toda a diferença para a safra”, reforça.
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Amplitude térmica elevada também preocupa
Outro fator de atenção é a alta amplitude térmica, com dias muito quentes e noites mais frias. Segundo André Moraes, essa variação prejudica o desenvolvimento fisiológico da planta. “O cafeeiro não responde bem a grandes oscilações de temperatura. Isso reduz a fotossíntese e compromete o desenvolvimento do fruto”, explica. Mesmo com volumes de chuva registrados em algumas regiões, o espaçamento entre as precipitações e os picos de calor seguem como pontos de alerta.
Safra 2026 depende do clima; 2027 já inspira cautela
Para a safra de 2026, a avaliação é de cautela moderada. “A carga está boa e o pegamento foi satisfatório. Se chover bem agora, podemos ter uma boa safra”, pontua o pesquisador. No entanto, ele alerta que a maturação tende a ser desuniforme, com presença de frutos verdes, maduros e secos na mesma planta, reflexo das múltiplas floradas ocorridas ao longo do ciclo.
Já para a safra de 2027, o cenário é mais preocupante. “O crescimento das plantas está lento. A chuva veio espaçada e combinada com muito calor, o que já começa a prejudicar o potencial produtivo do próximo ciclo”, avalia Moraes.
Atenção redobrada para pragas e doenças
As oscilações climáticas também aumentam o risco fitossanitário. De acordo com o pesquisador, o momento exige monitoramento intenso, especialmente para ferrugem, que se encontra em fase favorável ao desenvolvimento.
“Com períodos mais úmidos e temperaturas mais amenas, há condições para avanço de ferrugem, foma e doenças bacterianas”, alerta. Em relação às pragas, a principal preocupação neste momento é a broca-do-café, que exige acompanhamento e controle no período correto.
