Tarifaço de Trump pressiona o agro e liga alerta na pecuária

por | abr 4, 2025

Nova tarifa de 10% sobre produtos do Brasil eleva carga sobre a carne bovina para 36%. Analista vê espaço para manter competitividade, mas com desafios pela frente

O anúncio de um pacote global de tarifas comerciais feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta semana, movimentou o mercado internacional e acendeu o alerta para o agronegócio brasileiro. A medida, chamada pelo republicano de “Dia da Libertação”, impõe uma nova tarifa de 10% sobre os produtos do Brasil, elevando para 36% a carga tributária sobre a carne bovina brasileira exportada aos EUA — que já pagava 26% fora da cota estabelecida entre os países.

A iniciativa é parte de uma ofensiva de Trump para aplicar tarifas recíprocas a países que cobram impostos sobre produtos norte-americanos. A União Europeia será taxada em 20%, a China em 34%, e o Vietnã em 46%. A decisão gerou forte repercussão no Brasil, especialmente no setor agropecuário, que vê nos EUA um dos seus principais mercados.

Impacto direto na pecuária

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) classificou como “críticos” ou de “alta exposição” os impactos das novas tarifas para 19 produtos do agro, incluindo a carne bovina industrializada, os sucos de laranja e o etanol. Os EUA são hoje o terceiro maior destino dos produtos agropecuários brasileiros, representando 7,4% das exportações em 2024, o equivalente a US$ 12,1 bilhões.

Apesar da elevação tarifária, o analista de mercado Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, afirma que o Brasil ainda tem condições de se manter competitivo no mercado norte-americano.  “Mesmo com a tarifa de 36%, a expectativa é que o Brasil continue vendendo grandes volumes de carne bovina para os EUA. Eles estão com o menor rebanho desde os anos 1950 e precisam importar, mesmo com o custo mais alto”, explica Iglesias.

Caminhos alternativos

Para além dos EUA, o analista aponta que o Brasil pode ganhar espaço em outros mercados, como efeito colateral positivo da tensão comercial instaurada por Trump.  “O Brasil pode se beneficiar dessas disputas, ganhando mercado em países como Canadá, México, União Europeia e, principalmente, China”, avalia.

Segundo a CNA, produtos como a carne bovina termo processada — da qual o Brasil representa 63% das importações norte-americanas — tendem a sentir fortemente os efeitos do tarifaço. O mesmo se aplica aos sucos de laranja, com o Brasil respondendo por 90% das importações de suco resfriado e 51% do congelado nos EUA.

Reação no congresso e no executivo

A resposta brasileira veio em duas frentes: diplomática e legislativa. O Projeto de Lei da Reciprocidade Comercial (PL 2.088/2023), aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados, autoriza o governo a adotar medidas contra países que imponham barreiras comerciais ao Brasil. No entanto, o relator Arnaldo Jardim ressalta que o objetivo do texto é priorizar o diálogo e recorrer a retaliações apenas como último recurso.

“O Brasil deve buscar negociações amplas, com previsibilidade, e evitar medidas repentinas que perturbem o comércio internacional”, declarou o deputado.

Em nota conjunta, os ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio lamentaram a decisão de Trump e indicaram que o governo brasileiro mantém canais de diálogo abertos com os EUA, além de avaliar medidas legais no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Novas oportunidades para a carne do Brasil e arroba subindo

 Cenário de incerteza

Embora a nova política tarifária afete todos os principais exportadores agropecuários do mundo, inclusive China e União Europeia, os impactos para o Brasil podem ser significativos em setores onde é praticamente insubstituível para o mercado norte-americano.

Por ora, especialistas alertam que é cedo para medir os efeitos reais sobre os embarques brasileiros. Mas uma coisa é certa: a pecuária nacional entra em um novo capítulo de desafios no comércio exterior, com a necessidade de adaptação e busca por novas rotas comerciais em um mundo cada vez mais instável.