Preço do carbono na agricultura: estudo da Embrapa traz valor inédito

por | mar 17, 2025

Foto: Wenderson Araujo / Sistema CNA/Senar

O preço das emissões de carbono na agropecuária brasileira foi estimado em US$ 11,54 por tonelada de gás carbônico equivalente (tCO2e). O valor foi calculado por um estudo da Embrapa Territorial (SP), com base em pesquisas científicas realizadas em diversos países. O trabalho analisou metodologias de cálculo e os fatores que influenciam o preço do carbono na agricultura globalmente. O estudo foi publicado no primeiro número de 2025 da Revista de Economia e Sociologia Rural, da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural (Sober).

A economista Daniela Tatiane de Souza, analista da Embrapa, destaca que há poucas pesquisas que utilizam critérios científicos e sistemáticos para precificar as emissões de carbono no setor agropecuário. “Ter uma estimativa de valor é importante para que empresas e instituições que desejam desenvolver programas e políticas de incentivo a práticas sustentáveis tenham um preço de referência”, explica.

Como o estudo foi realizado?

A equipe da Embrapa conduziu uma revisão sistemática de publicações científicas sobre precificação do carbono na agropecuária global, utilizando fontes como Science Direct, Web of Science, Springer, Wiley Online e Google Scholar. Foram analisadas metodologias como custo marginal de abatimento, modelos de avaliação integrada e preço sombra. O levantamento incluiu 32 estudos publicados entre 2004 e 2024, com maior concentração de trabalhos na China, Austrália e Reino Unido.

Além do PIB e do nível de emissões de CO2, são considerados nos estudos a participação da agricultura na economia e o uso de fertilizantes nitrogenados

Os valores encontrados para a tonelada de CO₂ equivalente variaram significativamente, de US$ 2,60 a US$ 157,50/tCO2e. Souza explica que essa variação ocorre porque os estudos utilizam métodos distintos e analisam contextos agrícolas diferentes. O estudo da Embrapa atualizou os valores monetários de cada pesquisa para o equivalente em 2024.

A revisão revelou que o principal fator que influencia o custo das emissões de carbono na agropecuária é o Produto Interno Bruto (PIB) de cada país. “Qualquer variação no PIB afeta o preço do carbono. Verificou-se que economias maiores tendem a ter preços de carbono mais baixos”, afirma a economista. Além do PIB, outros fatores determinantes são o nível de emissões de CO₂ na agricultura, a participação do setor agropecuário na economia e o uso de fertilizantes nitrogenados.

Para estimar o preço do carbono na agropecuária brasileira, a equipe da Embrapa utilizou esses fatores globais, aplicando um modelo econométrico. O resultado foi um preço de US$ 11,54/tCO2e, valor próximo ao praticado no mercado voluntário internacional de carbono para a agricultura.

Impactos e perspectivas para a agropecuária

O chefe-geral da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti, ressalta que o aumento do nível tecnológico da produção pode, em alguns casos, elevar as emissões de carbono. No entanto, ele pondera que esse impacto pode ser compensado por ganhos na produtividade e pelo maior sequestro de carbono nos sistemas agropecuários. “Por isso, também realizamos pesquisas para mensurar o carbono capturado, permitindo uma visão completa do balanço de carbono nos sistemas produtivos do Brasil”, afirma.

Este é o segundo estudo da Embrapa Territorial sobre a precificação do carbono no setor agropecuário. Em 2024, o mesmo grupo de pesquisa estimou o preço do carbono para a cadeia da laranja em US$ 7,72/tCO2e. Além disso, o centro de pesquisa avaliou o estoque de carbono no cinturão citrícola brasileiro, em parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e com apoio financeiro do Fundo de Inovação para Agricultores da empresa Innocent Drinks, do Reino Unido. O volume de carbono armazenado nos pomares, no solo e nas áreas de vegetação nativa nas fazendas citrícolas foi estimado em 36 milhões de toneladas.

O estudo reforça a importância de compreender a dinâmica do carbono no setor agropecuário, auxiliando na criação de estratégias para mitigar emissões e valorizar práticas sustentáveis na agricultura brasileira.