Mesmo em plena entressafra, quando o volume de exportações tende a ser menor, os exportadores brasileiros de café seguem enfrentando sérios desafios logísticos nos portos do país. Em março de 2025, mais de 630 mil sacas de café deixaram de ser embarcadas, gerando um prejuízo direto de R$ 8,9 milhões às empresas do setor, segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Esses custos extras incluem gastos com armazenagem adicional, detentions, pré-stacking e antecipação de gates, resultantes da infraestrutura defasada dos portos nacionais. Desde que o monitoramento começou, em junho de 2024, o setor já acumulou R$ 66,5 milhões em perdas.
Além do impacto direto às empresas, o não embarque das cargas também gerou prejuízo à balança comercial. O Brasil deixou de arrecadar US$ 262,8 milhões (ou R$ 1,51 bilhão) em receita cambial apenas em março, considerando o preço médio FOB de US$ 336,33 por saca de café verde e a cotação média do dólar a R$ 5,7462.
Segundo Guilherme Heron, diretor técnico do Cecafé, os impactos atingem toda a cadeia. “O Brasil é o país que mais repassa o preço FOB ao produtor. Quando deixamos de embarcar nossos cafés, temos menor repasse ao cafeicultor, que trabalha arduamente para entregar um produto de qualidade e sustentável”, alerta.
Heron reconhece os anúncios recentes de investimentos em infraestrutura por parte do governo, como o leilão do terminal TECON10 em Santos e a concessão do túnel Santos-Guarujá, mas destaca a urgência em acelerar essas entregas. “São iniciativas importantes, mas que só devem ser concluídas em cerca de cinco anos. O setor exportador precisa de soluções imediatas, porque os prejuízos já são gritantes”, afirma.
Déficit hídrico marca início de 2025 e acende alerta para a cafeicultura
Infraestrutura portuária insuficiente agrava cenário logístico
De acordo com o Boletim Detention Zero (DTZ), elaborado pela startup ElloX Digital em parceria com o Cecafé, 55% dos navios que operaram nos principais portos brasileiros em março sofreram atrasos ou alterações de escala. Dos 325 navios monitorados, 179 enfrentaram problemas, sendo o Porto de Santos o mais afetado: 63% das embarcações (113) tiveram algum tipo de atraso, e o maior tempo de espera registrado chegou a 42 dias.
O relatório aponta ainda 19 omissões de escala e 13 cancelamentos de viagem de embarcações de longo curso, atribuídos à incapacidade de os terminais lidarem com o fluxo de cargas. “Isso nos preocupa muito, porque gera efeito dominó em toda a cadeia: pátios lotados, prazos estourados e aumento de custos para os exportadores”, reforça Heron.

No Porto do Rio de Janeiro, segundo maior corredor de exportação do café brasileiro (com 17,2% dos embarques no primeiro trimestre), o cenário também é crítico: 59% dos navios enfrentaram atrasos em março, e os prazos de embarque variaram de forma acentuada — com 46% das operações tendo menos de dois dias de gate aberto.
