Café em 2026: clima irregular desafia produtores

por | jan 23, 2026

O ano de 2026 tem apresentado um comportamento climático diferente do padrão histórico em importantes regiões cafeeiras do Brasil no verão. Registros recentes de lavouras alagadas no Norte do Espírito Santo, variações térmicas no Sul de Minas e a ausência de fenômenos climáticos dominantes, como La Niña ou El Niño, reforçam um cenário de instabilidade e atenção redobrada no campo.

De acordo com a agrometeorologista Bruna Perón, da Rural Clima, os eventos observados fazem parte de uma dinâmica atmosférica típica do verão, mas com características específicas neste ano.

Chuvas intensas e lavouras alagadas no Norte do Espírito Santo

Segundo a especialista, os altos volumes de chuva registrados recentemente no Norte do Espírito Santo não são incomuns para o período. Durante o verão, é frequente a atuação dos chamados corredores de umidade, conhecidos como Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS).

“O que muda de um ano para outro é o posicionamento desse sistema. Em alguns anos ele atua mais ao sul, em outros mais ao norte”, explica Bruna. Em 2026, os modelos climáticos já indicavam uma maior atuação desses corredores sobre áreas como o norte de Minas Gerais, sul da Bahia e Espírito Santo, favorecendo episódios de chuva volumosa e persistente.

Temperaturas mais amenas chamam atenção no Sul de Minas

Outro ponto que tem despertado a atenção dos produtores é o comportamento das temperaturas no Sul de Minas, que têm apresentado quedas em diferentes momentos do dia, mesmo em pleno verão.

De acordo com Bruna Perón, esse cenário também está relacionado à dinâmica das chuvas. “Quando ficamos dois ou três dias consecutivos com precipitações, as temperaturas tendem a cair. Já após períodos semelhantes sem chuva, ocorre uma elevação gradual”, afirma.

A tendência, segundo a agrometeorologista, é que as temperaturas sigam mais amenas ao longo do verão, especialmente no sul do estado, justamente por conta dessa alternância entre períodos chuvosos e intervalos mais secos.

Neutralidade climática marca a transição entre La Niña e El Niño

Do ponto de vista dos fenômenos globais, o verão de 2026 ocorre sob condições de neutralidade climática. Desde o final de dezembro, o Oceano Pacífico apresenta águas superficiais ainda mais frias, porém sem características atmosféricas suficientes para configurar um evento de La Niña.

“Ao longo do verão, o Pacífico equatorial deve iniciar um processo de aquecimento gradual, mas apenas entre o outono e o inverno as condições para o El Niño começam a ganhar força”, explica Bruna.

Com isso, nem La Niña nem El Niño devem exercer influência significativa neste verão, abrindo espaço para outros sistemas climáticos, como a Oscilação Antártica, a Oscilação Madden-Julian e, principalmente, a influência das águas do Oceano Atlântico, que têm papel determinante nas chuvas sobre o Brasil.

Fevereiro deve manter cenário de irregularidade nas regiões cafeeiras

Olhando para o mês de fevereiro, a tendência é de continuidade das oscilações climáticas, especialmente nas regiões cafeeiras de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. As chuvas podem até ocorrer com frequência, mas de forma irregular e mal distribuída, exigindo planejamento cuidadoso no manejo das lavouras.

As temperaturas devem permanecer mais amenas entre São Paulo e o Sul de Minas, já que não há indicação de longos períodos sem chuva. No entanto, Bruna Perón alerta para um ponto específico: o nordeste de Minas Gerais e o Espírito Santo.

“Nessas regiões, existe o risco de um intervalo entre 10 e 15 dias com poucas ou nenhuma chuva em fevereiro, o que pode provocar elevação gradual das temperaturas”, destaca.

Para as regiões cafeeiras de Rondônia, o cenário segue mais favorável, com chuvas constantes, bons volumes e temperaturas dentro da normalidade, mantendo condições mais estáveis para o desenvolvimento das lavouras.

Atenção e monitoramento constante

Diante de um verão marcado por chuvas irregulares, variações térmicas e ausência de um fenômeno climático dominante, o acompanhamento frequente das previsões e o ajuste de estratégias no campo se tornam fundamentais. O comportamento do clima em 2026 reforça a importância da agrometeorologia como aliada do produtor, especialmente em um ciclo cada vez mais desafiador para a cafeicultura brasileira.