Receita do agronegócio brasileiro com vendas externas cresce 6,2% no primeiro semestre de 2026; maior volume embarcado sustenta avanço em meio a desafios no comércio global
As exportações do agronegócio brasileiro movimentaram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 6,2% em relação ao mesmo período de 2025. O avanço ocorreu mesmo diante das tensões geopolíticas, do aumento dos custos de frete e das dificuldades logísticas que afetam o comércio internacional.
Os dados são de pesquisas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, realizadas com base em informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Siscomex).
O resultado foi sustentado principalmente pelo aumento da quantidade de produtos enviados ao exterior. No primeiro semestre, o volume exportado pelo agro brasileiro cresceu 7,5%, enquanto o preço médio em dólar recuou 1,2%.
Por que as exportações do agronegócio cresceram em 2026?
O crescimento ocorre em um cenário de elevada oferta brasileira de produtos agropecuários. A safra brasileira de grãos 2025/26 atingiu novo recorde. No café, a colheita da temporada 2026/27 também deve alcançar produção recorde, embora as chuvas possam comprometer a qualidade em algumas regiões. Já a cana-de-açúcar apresenta rendimento considerado satisfatório.
Com boa disponibilidade de produtos, o Brasil conseguiu ampliar os volumes enviados ao mercado internacional. Entre os produtos que mais aumentaram as exportações em volume no primeiro semestre estão:
- óleo de soja: +30%;
- milho: +22%;
- algodão: +21%;
- carne bovina: +15%;
- carne de frango: +14%;
- farelo de soja: +11%;
- carne suína: +10%;
- soja em grão: +7%.
Dessa forma, mesmo com redução de 1,2% no preço médio em dólar, o crescimento dos embarques permitiu ampliar o faturamento do setor.
Geopolítica aumenta desafios para o agro brasileiro
O avanço das exportações acontece, entretanto, em um ambiente internacional mais complexo. Segundo o Cepea, as tensões geopolíticas têm provocado fortes oscilações nos preços do petróleo, com possíveis impactos sobre os custos de produção e transporte.
Além disso, entre os principais entraves enfrentados pelas exportações do agronegócio em 2026 estão a elevação dos fretes e as dificuldades logísticas globais, incluindo problemas no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz. A política tarifária dos Estados Unidos também aparece entre os fatores que pressionam o comércio brasileiro.
Receita das exportações do agro para os EUA cai 25%
Apesar do crescimento do faturamento total, o desempenho das vendas brasileiras foi diferente entre os principais mercados. China, Índia, União Europeia e países do Golfo contribuíram para o avanço das receitas no primeiro semestre.
Por outro lado, houve retração nos embarques para destinos importantes, incluindo Emirados Árabes Unidos e Iraque. O principal destaque negativo foram os Estados Unidos. Segundo o levantamento, a receita obtida pelo agronegócio brasileiro com as vendas para o mercado norte-americano caiu 25% no período.
China responde por 35% do faturamento das exportações
Enquanto as vendas aos Estados Unidos perderam espaço, a China ampliou as compras de produtos do agronegócio brasileiro. No acumulado do primeiro semestre de 2026, a receita das exportações para o mercado chinês cresceu 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
A China desembolsou mais de US$ 30 bilhões com produtos do agro brasileiro e respondeu por 35% de todo o faturamento das exportações do setor no período. O complexo soja continua sendo protagonista nessa relação comercial. Cerca de 66% do valor desembolsado pela China com produtos brasileiros do agro foi destinado às compras de itens desse complexo.
Carne bovina e celulose também dependem do mercado chinês
Além da soja, outros produtos brasileiros mantêm forte relação comercial com a China. A carne bovina in natura destinada ao país representou 53% das exportações brasileiras do produto no período. Na celulose, a participação chinesa correspondeu a 48% das vendas externas brasileiras.
A carne suína também esteve presente na pauta de compras, com participação de 8%. No conjunto, os complexos soja, carnes e florestal responderam por mais de 90% das vendas brasileiras do agronegócio para a China em 2026.
Essa concentração aumenta a importância do mercado chinês para o setor, mas também amplia a exposição das cadeias brasileiras a eventuais mudanças nas regras comerciais.
Cota chinesa para carne bovina preocupa o setor
Para o segundo semestre de 2026, algumas dessas barreiras comerciais passam a exigir maior atenção.
Entre elas está a cota chinesa sobre a carne bovina brasileira, que pode limitar os embarques para um dos principais destinos da proteína nacional. O setor também acompanha as restrições impostas pela União Europeia relacionadas ao uso de agentes antimicrobianos.
Essas medidas podem afetar o acesso dos produtos brasileiros a mercados importantes justamente em um período no qual o país mantém elevada capacidade de oferta.
O que esperar das exportações do agro no segundo semestre?
Apesar das incertezas comerciais e geopolíticas, a disponibilidade global de produtos agropecuários deve permanecer em bons níveis nos próximos meses, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) citados pelo Cepea. O cenário, contudo, continua sujeito às alterações climáticas e aos desdobramentos de conflitos internacionais, especialmente os relacionados ao Irã e à Ucrânia.
Para o agronegócio brasileiro, o desempenho das exportações no restante de 2026 deve depender não apenas da capacidade produtiva do país, mas também da evolução dos fretes, das rotas logísticas, das barreiras comerciais e da demanda dos principais compradores.
Os números do primeiro semestre mostram, por enquanto, que o aumento do volume embarcado conseguiu compensar a queda dos preços médios e parte das dificuldades externas. Com isso, mesmo diante de um comércio internacional mais instável, o faturamento das exportações do agronegócio brasileiro segue crescendo em 2026.
