A Páscoa de 2025 trouxe mais do que ovos de chocolate: trouxe também dúvidas. Muitas embalagens coloridas escondem o que especialistas já chamam de “chocolate fake” — produtos que lembram o sabor do chocolate, mas estão longe de ser o que o nome promete. O motivo por trás disso tem raízes profundas e começa no campo: uma das maiores crises da história recente da produção global de cacau.

No Brasil, assim como no continente africano, as lavouras de cacau foram impactadas pelas inconstâncias climáticas.
O continente africano, responsável por cerca de 70% da produção mundial, foi duramente atingido por pragas, doenças e impactos climáticos extremos, reduzindo drasticamente a oferta de cacau. Com menos matéria-prima disponível e preços em alta, parte da indústria recorreu a alternativas mais baratas e artificiais, reduzindo o teor de cacau nos produtos e elevando o uso de aditivos e gorduras vegetais.
Segundo uma produtora de cacau entrevistada por nossa reportagem, Sandra Bartnik para que um produto seja legalmente considerado chocolate, ele precisa conter um mínimo de sólidos de cacau, ou seja, a massa e a manteiga extraídas da amêndoa. Mas nem todo produto à venda respeita esse critério — ou quando respeita, usa amêndoas de baixa qualidade, exigindo a adição de aromatizantes e outros ingredientes para disfarçar o sabor.
“O chocolate comercial sempre tem o mesmo aroma e sabor, porque é artificial. Já o chocolate verdadeiro nasce da qualidade da amêndoa, e isso depende da fermentação, do manejo, do clone escolhido e do cuidado no pós-colheita”, explica Sandra.
Do clone ao coxo: o segredo do sabor
A qualidade da amêndoa não começa no processamento — começa ainda na escolha do clone da planta. Alguns têm alta produtividade, mas não possuem características aromáticas interessantes. “Esses vão acabar no chocolate de prateleira, que precisa de muitos outros ingredientes para agradar ao paladar”, afirma.

E na produção do chocolate Tree to Bar, por exemplo, a escolha pelas amêndoas de qualidade começa no campo, com a produção de um cacau especial
Além disso, o pós-colheita é um divisor de águas entre um chocolate industrial e um bean-to-bar (ou tree-to-bar), como são chamados os chocolates produzidos diretamente a partir da amêndoa de cacau. É nessa etapa que o produtor controla o processo de fermentação, movimenta a massa nos coxos e equilibra as curvas de temperatura para desenvolver aromas frutados, florais, amadeirados.
“O chocolatier vai buscar o equilíbrio desses sabores, mas é a amêndoa que entrega a essência do chocolate. Se ela for ruim, nenhuma porcentagem alta de cacau salva o produto”, completa Sandra.
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Brasil em destaque, mas futuro exige atenção
Com os preços em alta, o Brasil vive um bom momento para os produtores de cacau, independentemente da qualidade das amêndoas. Mas o cenário pode mudar. Quando a oferta global se estabilizar, só quem investir em qualidade e rastreabilidade deve se manter competitivo.
“Hoje toda amêndoa está sendo bem paga. Mas no futuro, quem escolheu clones errados ou não fez um bom pós-colheita vai ficar restrito ao mercado de cacau comum. É hora de pensar adiante”, alerta.
Enquanto isso, para o consumidor, fica a dica: ler o rótulo e desconfiar dos chocolates genéricos, especialmente em datas comemorativas. Afinal, nem tudo que brilha em embalagem dourada é chocolate de verdade.
