O ano de 2026 começa com boas expectativas para a cafeicultura brasileira. Segundo a Fundação Procafé a safra 2026 de café tende a ser melhor do que 2025, porém não deve ser recorde. A leitura foi detalhada em dois episódios recentes do Podcast Pro Café e tem um ponto central: o clima voltou a impor incertezas, sobretudo pela irregularidade das chuvas desde o fim do inverno e pela manutenção do déficit hídrico em diversas regiões produtoras.
Em outras palavras, o setor entrou no ciclo com expectativa positiva, mas a sequência climática observada entre agosto e dezembro de 2025 mudou o tom das projeções. Ainda assim, há espaço para recuperação se dezembro, janeiro e fevereiro forem mais favoráveis — período que, segundo os pesquisadores e técnicos, costuma definir o tamanho final da safra.

Chuvas começaram cedo, mas “não engrenaram”
De acordo com a Procafé, a meteorologia indicava que as chuvas começariam mais cedo e teriam continuidade. De fato, alguns eventos ocorreram antes do usual. No entanto, a regularidade não se confirmou. Como resultado, a seca se prolongou e, em muitas áreas, a irrigação foi exigida por mais tempo, elevando o consumo de água em 2025 em comparação a 2024, segundo relatos do podcast.
Além disso, foi destacado que, em 2024, a chuva demorou a chegar, mas quando chegou “veio e ficou” a partir de outubro, com melhor distribuição. Já em 2025, a sensação no campo foi de postergação contínua: “a chuva boa é sempre na semana que vem”. Por isso, as lavouras passaram semanas sob estresse, com crescimento travado, desfolha e sinais de debilitação acumulada de anos anteriores.
Sul de Minas: chuva abaixo da média em parte da região, com exceções pontuais
No recorte regional, dados citados no podcast mostram que, em novembro, houve variação importante no Sul de Minas. Em Varginha, por exemplo, as precipitações ficaram acima da média devido a um evento intenso de chuva concentrada. Contudo, em municípios como Carmo de Minas, Boa Esperança e Guapé, choveu menos do que o esperado no mês.
Por consequência, o déficit hídrico seguiu elevado em algumas áreas, com armazenamento de água no solo ainda aquém do ideal. Além disso, foi reforçado que chuvas muito concentradas, apesar de ajudarem a “mudar a cara” da lavoura em curto prazo, tendem a ter menor eficiência agronômica, já que parte da água escoa e não é retida pelo solo.
Cerrado Mineiro e Mogiana: atenção redobrada para déficit e temperatura
Enquanto isso, a Procafé descreve um quadro mais preocupante no Cerrado Mineiro (Alto Paranaíba e Triângulo). No período comentado, foram citadas temperaturas acima da média e chuva muito abaixo do normal, o que contribuiu para déficit hídrico prolongado em áreas como Araxá, Patrocínio e Araguari.
Na Mogiana, o alerta também apareceu com força: novembro teve precipitação bem abaixo da média local mencionada no podcast, e o déficit aumentou. Ou seja, apesar de haver melhora pontual em dezembro, o ciclo ainda carrega marca de estresse.

Peneira menor e “queda de chumbinho” entram no radar
Entre os riscos discutidos, dois pontos ganharam destaque:
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Peneira menor em 2026: a Procafé aponta que deve haver algum nível de impacto no rendimento e no tamanho dos grãos. No entanto, foi ressaltado que a situação não tende a repetir o padrão extremo de 2024, porque, desta vez, faltou temperatura elevada persistente para causar o mesmo nível de dano observado sob calor intenso.
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Maior queda de chumbinho: como ocorreram várias floradas — em setembro, outubro e novembro —, com maior distância entre elas, o chamado efeito dreno pode aumentar. Em síntese, floradas e estágios muito desuniformes competem por recursos, o que pode elevar o abortamento de frutos pequenos.
Janeiro e fevereiro são o “ponto de virada” da safra
O recado mais importante: o que define safra é janeiro e fevereiro. Isso porque é nesse período que a lavoura demanda água e nutrição em alta para sustentar granação, enchimento e desenvolvimento dos frutos. Portanto, mesmo com um começo de ciclo difícil, a safra pode reagir se houver chuva mais constante no auge do verão.
Ao mesmo tempo, foi colocado que um novo veranico em janeiro ou fevereiro teria potencial de agravar perdas, já que o sistema vem de anos seguidos de “pancadas” climáticas. Em outras palavras, lavouras já depauperadas tendem a responder pior a novos estresses.
Manejo: nutrição e fitossanidade ganham peso com clima instável
Como consequência do quadro climático, os participantes reforçaram dois cuidados imediatos:
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Nutrição e absorção: com déficit hídrico, nutrientes dependentes de fluxo de massa podem ter absorção prejudicada. Por isso, lavouras podem “sentir” mais, mesmo com adubação feita.
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Fitossanidade: onde a chuva veio com mais intensidade — inclusive com relatos de granizo em algumas áreas —, o manejo fitossanitário tende a ser exigido. Ou seja, intervalos de aplicação podem precisar ser ajustados para reduzir risco de doenças e proteger folhas e ramos danificados.
Incerteza estatística: área real de café no Brasil segue como “incógnita”
Outro ponto levantado foi a dificuldade de estimar a safra com precisão porque a área total de café no Brasil não é plenamente conhecida. Como resultado, projeções podem variar bastante, especialmente quando se tenta transformar produtividade média em volume total. Ainda assim, a mensagem final foi de cautela: falar em super safra foi considerado sem base no cenário atual.
