Cacau: um novo artigo de luxo da agricultura mundial?

por | maio 12, 2025

Brasil vive grande oportunidade, mesmo com expectativa de safra menor em 2025

Em 2023, o preço da tonelada de cacau atingiu um recorde de aproximadamente R$ 75 mil (ou US$ 12.605). Ainda assim, muitos produtores brasileiros não conseguiram aproveitar essa alta histórica. O motivo? Problemas estruturais e produtivos que há anos impactam a cultura cacaueira no mundo todo.

A oferta mundial tem enfrentado sérias limitações, causadas por eventos climáticos extremos, lavouras envelhecidas e a incidência de pragas e doenças — especialmente nos maiores produtores globais: Gana e Costa do Marfim. Como consequência desse desequilíbrio entre oferta e demanda, os preços dispararam na Bolsa de Nova York, acumulando uma valorização de 165% em 2024, segundo a StoneX. Desde a safra 2021/22, o déficit global já soma 758 mil toneladas, o que acendeu um sinal de alerta no mercado.

O desafio da autossuficiência no Brasil

Apesar de ser um dos maiores consumidores de chocolate do mundo, o Brasil ainda produz menos do que consome. Desde a crise da vassoura-de-bruxa, o país se tornou importador de cacau. “Trabalhamos para mudar esse cenário e alcançar a autossuficiência”, afirma Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Confirmando a escassez global, a safra brasileira de 2024 ficou abaixo do esperado. Em 2023, o país produziu cerca de 220 mil toneladas, mas no último ano esse volume caiu para 180 mil toneladas — uma retração de 18,5%. A expectativa para 2025 ainda é desafiadora, já que a reposição dos estoques globais parece improvável. “Mesmo com uma safra africana favorável, o déficit deve continuar, mantendo os preços pressionados”, explica Anna Paula.

Cenário de escassez pode ser chance para o Brasil

A baixa oferta global pode representar uma grande oportunidade para o Brasil consolidar sua produção e até voltar a ser exportador. “Temos todos os elos da cadeia: produção agrícola, indústria moageira, indústria chocolateira e um mercado consumidor forte”, destaca Anna Paula. Atualmente, o país está entre os cinco ou seis maiores consumidores de chocolate no mundo.

Para avançar, o aumento da produtividade é fundamental. “Hoje, a média nacional é de 300 a 350 kg/ha, muito abaixo do ideal. Se dobrarmos esse número para 600 ou 700 kg/ha, o Brasil pode atingir 400 mil toneladas e conquistar a tão desejada autossuficiência”, projeta a executiva.

Além disso, a cacauicultura tem se expandido para novas regiões como o Oeste da Bahia, São Paulo, Mato Grosso e Tocantins — áreas que estão atraindo investimentos privados e trazendo tecnologia ao setor. Nessas novas fronteiras agrícolas, a produtividade pode ultrapassar os 3.000 kg/ha, número muito superior à média atual.

Desafios estruturais travam o avanço

Para transformar essa oportunidade em realidade, o país precisa superar gargalos importantes. Um deles é a falta de assistência técnica. “Ela é a base de tudo. Sem apoio, o produtor não consegue melhorar sua produtividade”, reforça Anna Paula. Mesmo com os preços em alta, muitos agricultores não tinham cacau suficiente para comercializar.

Outro entrave é a escassez de mudas de qualidade, essenciais para renovar e expandir os cacauais. E há também um grande desafio na mecanização. “A produção ainda é muito manual, especialmente na Bahia, onde o modelo de plantio em cabruca dificulta a mecanização convencional. Precisamos de máquinas adaptadas às nossas realidades”, explica Anna Paula.

Iniciativas no setor têm buscado soluções práticas. Um exemplo recente é o desenvolvimento de uma máquina de quebra de cacau mais acessível, voltada para pequenos produtores. O equipamento promete reduzir custos e aumentar a eficiência no beneficiamento do fruto.

Expectativas para 2025

Se o clima colaborar, a produção brasileira pode voltar a superar a marca das 200 mil toneladas em 2025. Com investimentos em tecnologia, assistência técnica e modelos produtivos modernos, o Brasil tem o potencial de mudar seu papel no cenário internacional do cacau.

A crise mundial pode ser justamente o empurrão que faltava para essa transformação. Com planejamento e apoio ao produtor, o Brasil tem tudo para fortalecer sua cadeia produtiva e se consolidar como grande player global da cacauicultura.