Pesquisador da Fundação Procafé explica que o atraso na maturação, aliado às chuvas registradas entre maio e junho, reduziu o ritmo da colheita e já começa a impactar a qualidade do café em algumas regiões
A colheita de café 2026 avança em ritmo mais lento do que o esperado nas principais regiões produtoras do Brasil. Embora o atraso já fosse previsto devido à maturação mais tardia dos frutos, as chuvas registradas entre o fim de maio e o mês de junho agravaram o cenário, interrompendo operações de campo, dificultando a varrição e aumentando a preocupação dos cafeicultores com perdas de qualidade.
Segundo o pesquisador Alysson Fagundes, da Fundação Procafé, a safra continua sendo positiva para o café arábica, mas está longe de representar uma produção recorde.

A maturação mais tardia já indicava atraso na colheita
De acordo com Alysson Fagundes, a própria fisiologia da safra já apontava para um calendário mais lento em relação aos anos anteriores. Naturalmente, a colheita deste ciclo deveria apresentar um atraso entre 15 e 20 dias, reflexo da maturação mais tardia dos frutos. Porém, o excesso de chuvas registrado justamente durante o período em que tradicionalmente a safra ganha ritmo acabou prolongando ainda mais esse cenário.
Na prática, o pico da colheita, normalmente observado ao longo de junho, deve ocorrer apenas durante julho em grande parte das regiões produtoras.
Chuvas dificultam operações e aumentam perdas no campo
Além de interromper a colheita mecanizada, as precipitações também prejudicaram a varrição do café, etapa importante para reduzir perdas após a queda dos frutos.
Segundo o pesquisador, diversas propriedades ficaram vários dias sem conseguir retornar às operações devido ao solo excessivamente úmido. Em regiões onde houve grande volume de café derriçado pelas chuvas, muitos produtores precisaram rever o planejamento operacional para evitar perdas ainda maiores.
Outro desafio é a incerteza climática para julho. Caso novas chuvas se confirmem, a recuperação do ritmo da colheita poderá sofrer novos atrasos.
Qualidade já apresenta sinais de impacto
Embora a produtividade do arábica continue sendo considerada boa, alguns indicadores de qualidade começam a preocupar os técnicos.
Entre os principais pontos observados estão:
- redução do tamanho das peneiras;
- aumento da catação;
- aparecimento antecipado de cafés com defeitos de bebida em algumas áreas do Sul de Minas;
- maior volume de frutos derrubados pelas chuvas.
Segundo Alysson Fagundes, esses fatores ainda não comprometem toda a safra, mas indicam que as condições climáticas passaram a influenciar diretamente a qualidade final do produto.
Como está o avanço da colheita nas principais regiões
O levantamento realizado pela Fundação Procafé, com base em informações de técnicos e agrônomos que acompanham diferentes regiões cafeeiras, mostra um cenário bastante heterogêneo.
Entre os principais percentuais levantados estão:
| Região | Colheita estimada |
|---|---|
| Sul de Minas (regiões frias) | 15% a 20% |
| Sul de Minas (regiões quentes) | 25% a 30% |
| Cerrado Mineiro | 15% a 20% |
| Mogiana Paulista | cerca de 35% |
| Matas de Minas (áreas altas) | 40% a 50% |
| Matas de Minas (áreas baixas) | 60% a 70% |
| Conilon | 60% a 80% |
No consolidado nacional, a estimativa é de que aproximadamente 35% da área de café arábica tenha sido colhida até o momento.

Doenças exigem atenção durante a colheita
Outro alerta feito pelo pesquisador diz respeito ao aumento da pressão de doenças nesta temporada. A combinação entre Ferrugem e Phoma, ocasiona a elevada desfolha fisiológica, alta umidade e interrupções na colheita.
Por isso, a recomendação é que o produtor aproveite eventuais paralisações provocadas pelas chuvas para manter o manejo fitossanitário em dia, evitando comprometer o potencial produtivo da próxima safra.
Safra segue positiva, mas não será recorde
Mesmo com o atraso da colheita e os impactos provocados pelas chuvas, Alysson Fagundes reforça que a safra de café arábica continua apresentando bom potencial produtivo.
Segundo ele, os dados levantados até o momento indicam uma boa produção, porém inferior ao desempenho observado na safra histórica de 2020. Ao mesmo tempo, o pesquisador chama atenção para o cenário do café conilon, cujos relatos de campo apontam perdas entre 30% e 40% em comparação com a safra anterior.
