Pesquisa transforma resíduo do etanol de milho em combustível sustentável

por | fev 26, 2025

Uma pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), revelou um novo caminho para a produção de combustíveis renováveis a partir do óleo de destilação do etanol de milho (DCO). O estudo, publicado na Nature Communications, identificou uma enzima natural capaz de converter esse subproduto em bioquerosene para aviação e diesel verde, ampliando as possibilidades de uso do DCO, que atualmente tem pouca aplicação comercial.

A enzima foi descoberta pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do CNPEM e apresenta um diferencial crucial para a indústria de combustíveis avançados: sua alta eficiência e resistência a temperaturas elevadas permitem que ela atue diretamente sobre o DCO. Esse óleo, rico em ácidos graxos livres, passa por um processo de descarboxilação enzimática, que remove oxigênio de suas moléculas e gera hidrocarbonetos semelhantes aos produzidos no refino de petróleo.

Além de sua aplicação como biocombustível, os compostos resultantes podem ser utilizados na fabricação de plásticos, cosméticos e outros produtos industriais, aumentando ainda mais o valor agregado desse resíduo.

Fortalecendo a cadeia do milho

A conversão do DCO em combustível sustentável tem um impacto direto na economia da cadeia produtiva do milho. Esse óleo residual, antes pouco aproveitado, agora pode ser transformado em uma alternativa viável para o transporte de longas distâncias, impulsionando a circularidade do setor e tornando o processo produtivo mais sustentável.

“O CNPEM tem apostado em soluções que vão além da redução das emissões de gases de efeito estufa. Nosso foco também inclui o uso responsável dos recursos naturais e a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas”, destaca Eduardo Couto, diretor do LNBR.

Além de agregar valor à cadeia do milho, a tecnologia reforça a sustentabilidade do setor. “O etanol de milho já gera coprodutos importantes, como o DDGS (Distiller’s Dried Grains with Solubles), usado na produção de ração animal. Agora, o óleo residual também ganha uma aplicação estratégica como SAF (combustível sustentável para aviação)”, explica a pesquisadora Letícia.

O estudo ainda abre caminho para novas possibilidades: outras matérias-primas, como o óleo de babaçu e macaúba, já estão no radar para pesquisas futuras, ampliando o potencial da bioeconomia no Brasil.