A agricultura circular é uma prática inovadora que vem revolucionando o setor agrícola, promovendo o aproveitamento total dos recursos e minimizando desperdícios.
Diferente do modelo tradicional, a agricultura linear, em que insumos são utilizados e descartados, o sistema circular foca em reaproveitar resíduos e devolver nutrientes ao solo. Na Fazenda 3W, em Carrancas, Minas Gerais, essa abordagem já está trazendo resultados notáveis na produção de batata-doce e pecuária de corte.
O professor Silvino Moreira, do departamento de agricultura da Universidade Federal de Lavras (UFLA), é um dos principais especialistas no conceito de agricultura circular no Brasil. Segundo ele, a agricultura circular originou-se da economia circular.

“Atualmente, cerca de 30% daquilo que produzimos é desperdiçado. Esses alimentos, que muitas vezes são descartados, podem se transformar em composto orgânico e retornar às áreas produtivas.”
Na prática, a Fazenda 3W aproveita os resíduos da batata-doce e do silo de grãos para alimentar o gado. Isso reduz significativamente os custos de ração, trazendo um impacto positivo tanto ambiental quanto econômico.
O CEO da Fazenda 3W, Wellington Pedro, explica um pouco mais. “O que não dá para ir à mesa vai para o boi. Com essa estratégia, conseguimos reduzir em 20% o consumo de milho e melhorar os resultados em até 30%.”
Integração lavoura pecuária e práticas sustentáveis

Além do reaproveitamento de resíduos, a Fazenda 3W adota práticas como a integração lavoura-pecuária e o plantio direto, que permitem o uso eficiente de nutrientes e a proteção do solo. Um exemplo disso é o reaproveitamento da palha do trigo, rica em potássio, que após a decomposição nutre o solo e reduz a necessidade de herbicidas.
“Essa palhada é muito rica em nutrientes, especialmente em potássio, que representa até 70% do que as plantas absorvem. Basta chover para que esse nutriente seja levado para o solo e aproveitado pelas próximas culturas”, explica o professor Silvino.
Essas práticas também ajudam a mitigar os efeitos do déficit hídrico, uma realidade cada vez mais presente nas regiões agrícolas do Brasil. Incorporar calcário a 50 cm de profundidade, como é feito na Fazenda 3W, melhora a resiliência das plantas em períodos de seca.
“Ao aumentar a quantidade de cálcio e a profundidade das raízes, garantimos maior produtividade e resistência das plantas”, ressalta Silvino. Ele complementa que, com essa técnica, a fazenda consegue corrigir o solo de forma eficaz e prolongar a necessidade de novas aplicações de calcário por até cinco anos.
Agricultura circular: um modelo de sustentabilidade e sobrevivência
Para o professor Silvino, a agricultura circular é mais do que uma tendência. “Acredito que ela seja uma questão de sobrevivência para o produtor. Quem não se adaptar e não aprender a respeitar a natureza e as pessoas, dificilmente conseguirá se manter na atividade agrícola a longo prazo.” Com o uso de compostagem, a Fazenda 3W reutiliza diversos tipos de resíduos, como casca de café, esterco de bovinos e frangos, e os transforma em insumos valiosos que retornam ao solo, melhorando a produção de grãos e a qualidade das pastagens.
“Nós estamos fazendo mais com menos. A ideia é simples: reaproveitar tudo o que podemos e devolver à terra, criando um ciclo contínuo e sustentável”, destaca o diretor de produção da Fazenda 3W, Wellington Dirceu Franco.
Correção do solo e sustentabilidade em prol de mais produtividade
No município de Nazareno, na Fazenda G7, o produtor de grãos, Evandro Ferreira, também vivencia a realidade da agricultura circular. Ele chegou na região quando a produção agrícola ainda era um grande desafio, já que o solo pobre, não permitia boas condições de produção.

“Nós chegamos aqui e encontramos um solo muito pobre, as doses de correções do solo com o calcário, foram essenciais e um divisor de água para nós. Isso mudou a realidade completamente da região”, ressalta.
E a experiência com a agricultura circular somada à correção do solo, têm permitido uma nova realidade para a região. Na fazenda, o produtor também consegue com o uso da compostagem aproveitar diversos resíduos.
“Tudo que a gente puder aproveitar, a gente traz para essa área de compostagem e, no fim, essa compostagem volta para a produção de grãos nas lavouras. Eu costumo falar que a agricultura circular ou a agricultura regenerativa, ela é questão de sobrevivência. Eu acho que o produtor que não viver isso, que não aprender e que não se desenvolver nesse sentido, logo não vai estar na atividade. Então, nós temos que realmente aprender a produzir mais com cada vez menos, aprendendo a respeitar a natureza”, conclui Evandro.
A agricultura circular é um exemplo de como práticas sustentáveis e rentáveis podem andar de mãos dadas no campo, garantindo a produtividade e a longevidade dos sistemas agrícolas. Como disse Silvino, “produzir mais com menos é o caminho que todo produtor terá que seguir, e a agricultura circular oferece uma solução para isso”.
